O Grito Ancestral das Mulheres Tupinambá no enfrentamento à Emergência Climática

Para o Povo Tupinambá, não são apenas seus corpos físicos que vêm sendo impactados pelos riscos socioambientais e climáticos já causados pelo corredor logístico Tapajós-Xingu, mas também o espiritual e ancestral do seu povo.

O Rio Tapajós é um dos maiores afluentes do Amazonas, ocupando cerca de 6% do território brasileiro, tendo sua nascente no estado do Mato Grosso, na confluência dos rios Juruena e Teles Pires. Este rio está situado no “arco norte”, sofrendo impactos diretos de projetos de logística e infraestrutura, além de estar localizado no “arco da devastação” – área afetada por atividades ilegais como madeireiras, garimpos e pesca predatória, comprometendo o bem viver das populações locais.

“Desde pequena, sempre vivenciei esse rio, foi um lugar afetivo quando ia com minha família tomar banho. Hoje, fico triste ao ver como as mudanças climáticas e os empreendimentos impactaram nossa convivência com o rio. Não me alimento nem mais do peixes porque os garimpos contaminaram tudo”, conta Ana Vitória Tupinambá, de 19 anos.

Habitadas por mais de 30 povos indígenas e tantas outras comunidades tradicionais, as águas do Tapajós contribuem para a subsistência, através  da pesca e da agricultura familiar destes povos. Um desses povos são os Tupinambás, com 26 aldeias nas margens esquerda do Baixo Tapajós, na Reserva Extrativista Tapajós-Arapiuns. Para o Povo Tupinambá, manter este rio vivo é preservar suas culturas e ancestralidade.

Fonte: Comitê de Memória, Território e Identidade do Conselho Indígena Tupinambá

A relação do Povo Tupinambá com o Rio Tapajós é profundamente espiritual e vai além do que podemos explicar, sendo construída através de seus ancestrais. O rio é mais do que somente um local de pesca e berçário de peixes, o Tapajós é onde ficam os grandes “pedrais”, que são moradas dos encantados, a casa dos espíritos de seus antepassados.

Na cosmologia indígena a figura feminina é primordial, sendo a Mãe Terra, a primeira mulher existente. Muitos dos encantados são figuras femininas, guardiãs sagradas dos rios, florestas e animais. Hoje, as mulheres indígenas, em sua essência, são guardiãs, ocupando diversos espaços, como as ruas, as redes, os territórios e as câmaras dos deputados para defesa e proteção dos direitos dos povos indígenas.

Ameaças ao Povo Tupinambá

A partir de 1500, inúmeros povos indígenas sofreram perseguições e foram atravessados pelo sangrento processo de colonização, que atingiu não somente seus corpos físicos, mas também suas culturas, crenças e, principalmente, a espiritualidade. Tais aspectos tornaram-se uma sentença para esses povos, através da perspectiva que eram corpos “sem almas”, dessa maneira, sem direitos e inferiorizados. 

Apesar de parecer um passado distante, as ameaças à espiritualidade dos povos indígenas permanecem no presente. E para o povo Tupinambá, não são apenas seus corpos físicos que vêm sendo impactados pelos riscos socioambientais e climáticos já causados pelo corredor logístico Tapajós-Xingu, mas também o espiritual e ancestral do seu povo.

Raquel Tupinambá, a mais jovem cacica de seu povo e coordenadora geral do Conselho Indígena Tupinambá, nasceu e cresceu com o Rio Tapajós perto da sua porta, na aldeia Surucuá. Região em que os povos indígenas foram fortemente impactados pela colonização, que resultou na negação de identidade por meio da catequização. “Os rios e as florestas são partes dos nossos corpos, pois estamos juntos. Nossa existência depende da floresta e dos rios, esses espaços que também guardam nossos encantados, os nossos ancestrais que já estiveram por aqui”, conta.

Raquel Tupinambá. Foto: Viviane Borari – As Karuana / Apoena Fotos

Foi na Ilha de Ilage, morada dos encantados e local sagrado para o Povo Tupinambá do Baixo Tapajós, próximo à aldeia Jacaré, que Raquel e Cleide compartilharam comigo as ameaças enfrentadas por este lugar e todo o seu território. Essas ameaças têm origem em duas frentes distintas, mas que se interligam: os projetos de infraestrutura para o Tapajós e a emergência climática.

“Vivenciamos nos últimos anos uma emergência climática, os rios e florestas estão cada vez mais suscetíveis às queimadas. As florestas estão quase em condições irreversíveis de recuperação, com muitas espécies frutíferas incapazes de sobreviver a essa seca. Foi uma grande perda para nossa subsistência; as roças foram diretamente impactadas, e muitas comunidades não conseguiram sobreviver”, relatou Raquel durante o 6º Grito Ancestral do Povo Tupinambá.

A grande estiagem de 2023 afetou diariamente o Povo Tupinambá. Para muitos, essa seca foi a mais impactante que já vivenciaram às margens do Rio Tapajós. Durante esse período, as comunidades enfrentaram enormes dificuldades de alimentação. O olhar ancestral do Povo Tupinambá reforça a necessidade de luta para enfrentar o risco iminente de escassez de alimentos nos territórios, que cada vez mais, devido os efeitos da emergência climática, eles dependem de produtos externos para sobreviver, pois as áreas de roçados, onde são plantados seus alimentos, estão perdendo a capacidade de se regenerar.

Ao mesmo tempo, à frente de seus territórios, inúmeras balsas continuaram a trafegar, transportando soja, minérios, areia, madeira e outros produtos. “Somos impactados por inúmeros projetos prejudiciais que estão destruindo nossas florestas, rios e vidas. Há um porto de soja em Miritituba, e devido a ele há planos de destruir os pedrais em torno da ilha de Ilage, resultando em grandes impactos. Este lugar, que é a morada de nossos antepassados, será totalmente destruído”, afirma Cleide Tupinambá, arqueóloga, de 33 anos, da Aldeia Jacá.

O porto de Miritituba faz parte do corredor logístico Tapajós-Xingu, que pretende conectar o Cerrado mato-grossense à Amazônia para exportar grãos (commodities) em larga escala. Ele faz parte de um projeto maior, o chamado “Arco Norte”, que inclui as bacias dos rios Madeira e Tocantins, destinado a facilitar a exportação de commodities, especialmente soja e milho. 

Em outubro deste ano, quase 70 organizações de agricultores, trabalhadores urbanos, ribeirinhos, indígenas, quilombolas, pescadores, extrativistas, moradores da BR-163, movimentos sociais e do terceiro setor divulgaram uma carta, abordando os riscos socioambientais que este corredor logístico impõe à região da Amazônia Legal. Leia a carta na íntegra aqui.

A implementação completa do corredor logístico Tapajós-Xingu seria composta pela Rodovia Cuiabá-Santarém (BR-163), aberta no início dos anos 1970; pelos terminais portuários em Miritituba e Santarém, ambos no Pará, conectados por uma hidrovia no médio e no baixo Tapajós (com a possibilidade de expansão para o alto Tapajós e seus principais afluentes, os rios Juruena e Teles Pires); e pela proposta de abertura da ferrovia Ferrogrão (EF-170) de mais de 900 km entre Sinop (MT) e Miritituba (PA).

Na luta e defesa de seus territórios contra esses projetos, o Povo Tupinambá tem se organizado, defendendo um Tapajós Vivo, com seus rios, povos e florestas. “O povo Tupinambá está aqui para lutar e proteger nosso rio, nossa floresta e nossas vidas. Queremos deixar claro que jamais entregaremos nosso território ao grande capital”,  destaca Cleide.

GRITO ANCESTRAL DO POVO TUPINAMBÁ

Grito Ancestral do Povo Tupinambá. Foto: Viviane Borari – As Karuana / Apoena Fotos

A maior mobilização do Povo Tupinambá do Baixo Tapajós aconteceu na Ilha de Ilage, a casa dos encantados, na aldeia Jacaré, entre os dias 10 e 12 de novembro. O 6º Grito Ancestral do Povo Tupinambá reforçou a necessidade da luta em defesa do território e teve como objetivo mostrar à sociedade a presença de povos indígenas na Resex Tapajós Arapiuns e como estão sendo impactados pelos diversos projetos que destroem o bem viver.

“É um grito de resistência do povo Tupinambá para ser ouvido pela sociedade civil e pelas autoridades federais, estaduais e municipais. O objetivo desse grito é defender contra os crimes ambientais que o Rio Tapajós e as populações que dependem de suas margens estão sofrendo”, relata Cleide Tupinambá.

A principal demanda do Povo Tupinambá é o respeito pelo seu território, por meio da demarcação de terras e da proteção do Rio Tapajós. Durante o evento, também foi realizado um ritual indígena em defesa do Rio Tapajós, pedindo a retirada de garimpos de terras indígenas, a revogação de projetos de leis anti-indígenas, além de se opor à mineração, ao agronegócio e às atividades madeireiras em seu território.

“O principal objetivo é chamar a atenção para o fato de que o território Tupinambá tem dono. Estamos aqui, e estamos sendo impactados por essas políticas e pela destruição da natureza e dos rios. As balsas que passam por aqui estão impactando nossas vidas e destruindo espaços sagrados. Queremos ser incluídos nas políticas públicas relacionadas ao nosso território. Nos mobilizamos porque precisamos da Amazônia viva e do Tapajós vivo para continuarmos sobrevivendo”, finaliza Raquel.

Grito Ancestral do Povo ou Tupinambá. Foto: Viviane Borari – As Karuana / Apoena Fotos