Comunicadores populares da Amazônia se preparam para a COP28 em Santarém

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Dez comunicadores e comunicadoras da Amazônia brasileira se reuniram em Alter do Chão, distrito de Santarém, entre os dias 23 e 27 de outubro, para dar continuidade à formação do projeto ‘Prepare-se para a COP28’.

O encontro foi realizado pela anfitriã ONG Saúde e Alegria em parceria com a DW Akademie e teve como objetivo a troca de conhecimentos a respeito da emergência climática, principalmente em relação aos seus impactos na região amazônica. Estiveram presentes lideranças indígenas e ribeirinhas locais, além de especialistas do clima, jornalismo e comunicação popular.

No primeiro dia, os participantes puderam conhecer e trocar ideias sobre a comunicação popular e comunitária com representantes de iniciativas de mídias locais como o jornal Tapajós de Fato, Guardiões do Bem Viver, Rádio Uxicará e o coletivo Jovem Tapajônico e Conselho Indigenista Tapajós Arapiuns (CITA). Estratégias relacionadas à crise ecológica, financiamento e autonomia dos meios de comunicação foram alguns dos temas debatidos pelos comunicadores presentes.

Darlon Neres, um dos dez comunicadores selecionados pelo projeto, integra o coletivo Guardiões do Bem Viver e a Rádio Uxicara, que atua na região do baixo Tapajós, próximo a Santarém. De acordo com ele, diante do desafio de fazer comunicação na Amazônia, é importante que diferentes coletivos possam trocar ideias sobre seus pontos em comum. Ele pontua que “quando se fala de comunicação, é uma comunicação diferente, democrática, que respeita o bem viver dos povos, feita pelas pessoas do território, para o território, com uma linguagem acessível”. Para Darlon, o encontro entre os comunicadores fortalece a luta da comunicação popular, pois “as lutas são comuns e os desafios são os mesmos”, e embora haja diferenças, “o objetivo é fazer ecoar as vozes dos menos favorecidos e talvez, dos esquecidos que estão aqui”.

A visita à sede da ONG Saúde e Alegria ocorreu no segundo dia de encontro, com a presença do professor e climatologista Lucas Perez, a assessora de imprensa da Universidade Federal do Oeste do Pará, Leni Santos, e Raquel Tupinambá, coordenadora geral dos Tupinambá da Reserva Extrativista Tapajós-Arapiuns, para traçar um panorama da crise climática na Amazônia e Samela Bonfim do projeto Sapopema.

Enquanto Lucas Perez apresentou um quadro bem explicativo a respeito dos processos geofísicos que envolvem as Mudanças Climáticas, Leni Santos apontou para os desafios de tradução enfrentados pelos jornalistas e comunicadores em relação aos dados e pesquisas científicas. De acordo com elas, é necessário que cada vez mais cientistas compreendam a necessidade de explicar com clareza os fatores das mudanças climáticas para atingir um público amplo e diverso. Raquel Tupinambá trouxe a perspectiva das populações indígenas da Amazônia que têm enfrentado diversos impactos das mudanças climáticas. De acordo com ela, os conhecimentos desses povos são tão importantes quanto os dos cientistas e devem ser levados a sério para enfrentar a crise ecológica.

Luiza Cilente, assistente de coordenação do projeto, ofereceu uma oficina sobre a ferramenta Colmena, uma plataforma livre e gratuita na qual uma rede de comunicadores e mídias de todo o mundo, especialmente de rádio e podcasts, pode produzir colaborativamente e compartilhar suas produções.

Na manhã do quarto dia, a turma de comunicadores e comunicadoras atravessou o rio Tapajós para conhecer o Centro Experimental Floresta Ativa (CEFA), localizado na Reserva Extrativista Tapajós Arapiuns. O Centro é um espaço coletivo dedicado à permacultura e à agroecologia, além de servir de abrigo para encontros das comunidades do entorno. Neste espaço, os comunicadores foram guiados pelas lideranças locais.

Após retornarem a Alter do Chão, o grupo debateu Gênero e Justiça Climática junto de Olívia Beatriz, que integra o grupo de trabalho sobre Gênero e Clima do Observatório do Clima.

Tayná Silva, moradora de Icoaraci, Belém, é uma das participantes do projeto, disse que considera fundamental associar gênero e Justiça Climática e que não tem como pensar gênero sem outros atravessamentos sociais: “É importante que consigamos localizar essas injustiças climáticas que já estão acontecendo, que fazem com que determinados corpos, determinadas comunidades, sintam as mudanças do clima de diferentes formas e que cria injustiças, e faz permanecer outras injustiças sociais como machismo, racismo, lgbtfobia e outras estruturas sociais de desigualdade”, diz a jovem que faz parte do Palmares Lab-Action.

À tarde, os comunicadores e comunicadoras iniciaram o alinhamento a respeito dos temas a serem debatidos na COP28, junto do jornalista e fundador do InfoAmazônia, Gustavo Faleiros. O mergulho no tema das Conferências dos Clima teve continuidade na manhã do dia seguinte, junto do coordenador geral do Projeto ‘Prepare-se para a COP’, Matthias Kopp.

As e os dez comunicadoras e comunicadores foram selecionados como bolsistas para produção de reportagens a respeito das mudanças climáticas e o impacto em seus territórios. Além disso, irão realizar a cobertura da 28ª Conferência do Clima, em Dubai, Emirados Árabes Unidos, no final deste ano.