Comunicadores Amazônidas chegam a Dubai para realizar cobertura da Conferência do Clima

No results found.

Uma larga distância foi percorrida. Em mais de 14 horas voo, além de curtas viagens por terra e, em alguns casos, rios, a equipe de 10 comunicadores e comunicadoras amazônidas que integram o projeto “Prepare-se para a COP28” finalmente aterrissou em Dubai, país dos Emirados Árabes que esse ano é sede da 28ª Conferência das Partes (COP28) das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (UNFCCC). 

O grupo é formado por pessoas dos estados do Amazonas, Pará e Maranhão e busca lançar olhar desde seus territórios para produzir conteúdo direcionado à diversidade de populações que habitam a Amazônia. É a primeira COP de Angelo Madson, Camila Garcêz, Darlon Neres, Elitiel Guedes, Kamila Sampaio, Mary Tupiassu, Maickson Serrão, Raimundo Baniwa, Tayna Silva e Vitória Mendes. 

Sem dúvida, é um desafio cobrir um evento dessa magnitude, em que cerca de 100.000 pessoas de todo o mundo já estão registradas e estima-se que 50 mil circulam diariamente. Afinal, são  198 países que assinaram a Convenção-quadro das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas. Mesmo com credenciamento adequado, jornalistas enfrentam as longas filas para entrar nos espaços como salas, pavilhões e arenas onde ocorrem simultaneamente painéis e debates temáticos, realização de eventos paralelos, feiras de negócios, manifestações artísticas e, é claro, com acesso mais restrito, as mesas de negociações do alto escalão. 

Os dois primeiros dias de Conferência foram dedicados à presença dos chefes de Estado dos países membros. A participação do presidente Lula, no entanto, foi controversa, reacendendo o debate a respeito do compromisso do Brasil em reduzir a emissão de gases de efeito-estufa, reduzindo a exploração e a queima de combustíveis fósseis, como o petróleo.

Lula se encontrou com a sociedade civil e representantes de movimentos sociais no mesmo dia em que o Ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, anunciou a entrada do Brasil na OPEP+ que é uma extensão da Organização dos países produtores de Petróleo (OPEP), maior cartel de petróleo do mundo. Embora Lula tenha justificado a adesão do país como uma forma de pressionar pela transição energética, o argumento não convenceu ambientalistas. Esperava-se mais compromisso com as pautas climáticas de um país que conseguiu reduzir significativamente o desmatamento em menos de um ano de governo. 

Autoridades como governadores e prefeitos da região norte também marcaram presença e foram entrevistados pelos comunicadores e comunicadoras do projeto “Prepare-se para a COP”. Embora reconheça que a presença de diversos movimentos sociais da Amazônia nessa COP ajude a enriquecer o debate, Vitória Mendes acredita que os representantes políticos deste território ainda não incorporaram o vocabulário climático: 

“Acho que a linguagem diz muita coisa, porque eu não vejo eles falando sobre adaptação e mitigação, e atingir as metas, e apresentar metas concretas em relação às nossas ambições climáticas”. 

A comunicadora, que é jornalista e estrategista de conteúdo da Apply Brasil, considera isso frustrante devido à urgência em relação “ao gente precisa fazer para atingir as nossas metas, para a redução da emissão de gases do efeito estufa, e para adaptar as nossas cidades à realidade que vai bater na porta muito em breve”.

Para Fabio Pena, coordenador de comunicação do Saúde e Alegria, que também está presente na COP, é fundamental dar visibilidade aos impactos da crise climática na Amazônia. Para ele, o problema é que muitas vezes, a situação dos territórios situados na maior floresta tropical do mundo, são documentadas e reportadas por canais da grande imprensa, que “nem sempre traduzem adequadamente a realidade” .  Por isso, segundo  ele,

“a possibilidade de estarem no principal evento que trata do assunto ajuda o público a entender melhor a crise climática que estamos vivendo e a cobrar das lideranças e seus governantes ações mais efetivas em busca de soluções”.

A jornalista Camila Garcêz, do Idesam, se sente representada ao ver que o debate da Amazônia ganhar espaço em diversos painéis e discussões, no entanto,   acredita que ainda é preciso ter maior participação da sociedade civil na hora de bater o martelo: 

“Acho que seria interessante que a sociedade civil participasse não só dessas discussões dentro de painéis, que são tão necessárias, mas que é necessário também que as grandes decisões sejam tomadas por quem faz parte dessa conservação, por quem faz parte de fato da floresta”. 

Embora a COP receba milhares de pessoas diariamente, efetivamente, a balança das decisões pesa mais para o lado das autoridades governamentais influenciadas, muitas vezes, pelo lobby empresarial.

Elitiel Guedes, jornalista do Brasil de Fato, lembra que existem países que não estão interessados em beneficiar o povo. No entanto, destaca um avanço desta COP em Dubai: o reconhecimento de que o uso do solo afeta o clima. Ele, que além de comunicador é agricultor, considera positivo o reconhecimento de que o avanço da monocultura é um fator que também contribui para o aquecimento global.

O grupo está produzindo o podcast “Nós na COP” que deverá ser lançado em breve aqui no site.