As mudanças climáticas estão acontecendo e são perversas

Agentes Indígenas de Manejo Ambiental (Aimas) observam o ambiente e descrevem em diários os efeitos dos extremos climáticos no alto rio Negro, uma das regiões mais preservadas da Amazônia. Estiagem recorde no Amazonas isolou roças e afetou a navegabilidade na região.

A Rede de Agentes Indígenas de Manejo Ambiental (Aimas) é um projeto criado pela Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (FOIRN) em conjunto com o Instituto Socioambiental (ISA) nas regiões do médio e alto Rio Negro.

As pesquisas tiveram início em 2005, com a realização de uma série de reuniões e oficinas de manejo ambiental em associações do rio Tiquié, com a participação significativa de lideranças e moradores das comunidades, inclusive do lado colombiano. Atualmente são 65 Aimas na região do médio e alto Rio Negro. A maioria são homens e uma pequena parte são mulheres.

Os agentes indígenas têm um papel fundamental na valorização e transmissão dos conhecimentos tradicionais. Atuam como guardiões desses conhecimentos. Os diários, feitos em cadernos e, recentemente, em tablets, são dados e informações valiosos para compreender e explicar os grandes ciclos da natureza e cosmológicos. O termo Manejo do Mundo é uma tradução para práticas que envolvem observar, compreender, curar, proteger, mediar, reparar, comunicar e compartilhar.

Os Aimas produzem conhecimento, pesquisas e apoiam atividades voltadas à governança sustentável de suas comunidades, além de estimular o intercâmbio entre a ciência dos brancos e o conhecimento tradicional indígena. Tiveram um papel importante na elaboração dos Planos de Gestão e Ambiental das Terras Indígenas do Rio Negro, por exemplo, quando foram responsáveis pelo censo realizado em toda região.

Juvêncio Cardoso, do povo Baniwa, mais conhecido pelo nome Dzoodzo, é um desses pesquisadores indígenas, apesar de não ser mais Aima atualmente, faz pesquisas e acompanha o tema há mais de 15 anos. Com mestrado em Ciências Ambientais, fala da importância do conhecimento indígena para entender os fenômenos incomuns que têm acontecido ultimamente na região.

“Existe um sistema de conhecimento dos pajés associado aos grandes ciclos climáticos. Quando acontece algum fenômeno incomum, além de fazer os registros, consultamos esses conhecedores tradicionais para tentar compreender o tal acontecimento”, explica Dzoodzo Baniwa.

Para o monitoramento ambiental climático na região do Rio Negro, os Aimas registram um conjunto de observações sobre chuvas, nível do rio, extensão das cheias e vazantes, condições de navegação, nome da estação na língua indígena, fenologia de plantas importantes – frutas e flores: quais estão maduras e já estão sendo consumidas, por pessoas, peixes e animais, ciclo dos peixes (e dos animais), migrações, piracemas e ajuntamentos reprodutivos, alimentos que consomem e manejo pesqueiro, reprodução, comportamento e migrações de mamíferos e aves, reprodução de insetos e anfíbios (por exemplo, revoada de saúva, piracema de rãs, aparecimento de lagartas comestíveis).

O conhecimento produzido ao longo dos anos se transformou em uma série de publicação conhecida como “Revista Aru” e outras publicações como Ciclos Anuais do Tiquié, que reúne mapas e desenhos feitos pelos Aimas a partir das anotações e registros.

Secas e cheias extremas – Aimas relatam desequilíbrio climático em curso

Morando na comunidade Canadá do rio Ayari, distante da cidade de São Gabriel da Cachoeira, Juvêncio acompanhou e monitorou os impactos da seca deste ano. “A seca chegou cedo este ano. Um dos relatos comuns é que, com essa seca, os peixes estão sumindo. Os conhecedores tradicionais também relatam que atualmente é quase impossível aguentar o dia todo na roça, devido ao calor muito forte, e que antigamente não era assim”, aponta.

Outro Aima, morador da comunidade Açaí-Paraná, localizado no baixo Rio Uaupés, Rosivaldo Miranda, do povo Piratapuia, que também é integrante da Rede Wayuri de Comunicadores Indígenas, relata que muitas famílias de sua comunidade devido à seca, não conseguiram chegar às roças durante várias semanas, em consequência tiveram sua soberania alimentar ameaçada.

Os impactos trazidos pela estiagem são sentidos também na área urbana. Com o nível dos rios mais baixo, as condições de navegabilidade ficam comprometidas. A cidade de São Gabriel da Cachoeira, que depende de balsas que saem de Manaus para abastecimento de comida e combustível.

Com a seca, esse transporte ficou prejudicado. Isso causou racionamento de energia por 20 dias no mês de outubro, os preços de alimentos subiram, e faltaram itens nos mercados. A seca severa causou danos ambientais sem precedentes nos municípios mais abaixo, próximo de Manaus, que tiveram impactos maiores devido às queimadas na região, que provou fumaças, que chegou a cobrir a capital amazonense por várias vezes.

No Alto Rio Negro, a estiagem acontece logo após a região sofrer com cheias extremas. Em 2021, o nível do rio bateu recorde de enchente em Manaus e em São Gabriel da Cachoeira. Nesse período, na região do rio Ayari, a cheia causou prejuízos, mais de 18 famílias foram afetadas, segundo os registros do Juvêncio, mais de 30 roças perdidas e mais de 300 toneladas de mandioca perdidas.

“Como o nível do rio demorou a voltar ao normal, muitas famílias não conseguiram queimar novas roças no período de quase um ano, causando um risco na segurança alimentar. Essa cheia também influenciou no sistema de pesca, pois o nível do rio estando alto, não teve ciclo

reprodutivo normal de peixes. Os ambientes de reprodução estavam submersos, e os pescadores não conseguiram acompanhar”, explica Juvêncio.

Naquele ano, essa mesma cheia causou desequilíbrio no sistema de reprodução da minhoca daracubi, usada como isca para pescar à noite. Esse tipo de minhoca precisa da seca para se reproduzir e, no tempo de cheia comum, elas sobem nas orquídeas e bromélias. Mas a cheia chegou de surpresa e demorou baixar. Na comunidade de Boa Vista, localizada na foz do Içana, pescadores relataram sumiço das minhocas.

Rosivaldo conta que, na sua comunidade, as minhocas também sumiram, e várias roças foram perdidas. “A cheia chegou muito rápido que não deu para fazer nada”, afirma. Lembrou-se do caso da tia Amélia, que em 2021 perdeu roças devido à cheia, e na seca de 2023, ela não conseguiu chegar à roça, pois ela depende de igarapé para chegar lá.

A luta contra a crise climática deve ser de todos

Para Dzoodzo, esse trabalho feito pelos Aimas é muito importante, pois tem ajudado a obter dados reais para o manejo, gestão e governança do território todo. Como também ajuda a entender as mudanças que tem acontecido na região.

“Usamos esses dados em nossas assembleias, projetos para subsidiar os trabalhos em nossos territórios. Os dados também ajudam a entender os fenômenos climáticos, a partir dos registros, temos buscado entender com os conhecedores tradicionais, em linha do tempo, dos acontecimentos nos territórios e depois são comparados com notícias e acontecimentos globais”, explica. Esses registros são comparados com o conhecimento científico, onde, quando vemos que há aumento na temperatura global, aqui localmente, as pessoas estão sentindo isso na pele”, completa.

Juvêncio reivindica que a mobilização para reduzir os impactos das mudanças climáticas seja de todos. “Não adianta a gente preservar se as grandes indústrias continuam poluindo”, declara.

Para Rosivaldo, as duas ciências – tanto dos povos indígenas quanto dos não-indígenas – podem contribuir para buscar mitigar os efeitos das mudanças climáticas, que cada vez mais afetam a vida das pessoas. Segundo ele, a cheia de 2021 e a seca severa deste ano, dão sinal que as coisas, os ciclos estão mudando a cada ano. “As mudanças climáticas estão acontecendo, e são perversas. Cada ano que passa, vem uma seca diferente, uma enchente diferente”, afirma.

O mundo precisa se unir para enfrentar a crise climática, as previsões exigem ação imediata de todos nós, principalmente dos governos e de grandes empresas que insistem em continuar com políticas energéticas que nos levam a um futuro catastrófico. Espera-se que a COP28, a ser realizada em Dubai no final de novembro e primeira semana de dezembro de 2023, seja um marco para mudanças reais e necessárias para a nossa existência.

Ouça o Podcast Rede Wayuri na COP28, parte desta reportagem: