Amazônia é uma Mulher: uma nova consciência para o mundo

Como a crise climática está relacionada diretamente como a misoginia 

Uma mulher de menos de 1,55 de altura. Cabelos compridos, lenço na cabeça e uma camisa escrita “Marajó”. Depois da fala de deputados, técnico da Petrobras, apresentação de power points, esta mulher sobe ao púlpito da Assembléia Legislativa do Pará, em sessão para a qual não foi convidada, mas que reivindicou fala, que tratava sobre exploração de Petróleo na Amazônia. “Em 1930, minha vó que era uma grande pajé, um dia conversando com o Mar, e o Mar disse pra ela, e ela deixou escrito, que daqui a 100 anos o mal chegaria na costa do Marajó, ele iria matar os peixes, manchar as águas, os ricos iam ficar mais ricos, e os pobres iam ficar mais pobres. O mar revoltado, ia invadir a face da terra, e a temperatura da terra estaria tão quente que nem um corpo ia aguentar”, avisa. E arremata sua fala alertando, “o meio da terra, a linha do equador, que é onde está os 14 milhões de barris de petróleo que a Petrobras está de olho, lá está o ímã da terra ”, diz Naraguassú Pureza, educadora popular, ascendente de indígena marajoara.

No arquipélago do Marajó, viviam diversas etnias indígenas, como os Aruans e os Anajás, que foram catequizadas e dizimadas pela colonização. Hoje não há mais registro de nenhuma aldeia em todo o arquipélago. No entanto a herança xamânica desses povos, cercados por rio e oceano, permanece viva, sendo o Marajó uma grande terra de cultura e pajelança cabocla, com a figura feminina no centro do poder espiritual como as pajés Zeneida Lima e Roxita.

Naraguassú milita contra a exploração de petróleo no Rio Amazonas, já que, segundo ela, o resultado seria uma catástrofe sem precedentes para a humanidade. Claro que a fala de uma mulher marajoara não interessa a parlamentares engravatados em pleno exercício de lobby para aprovação de mais uma pauta que interessa a grandes grupos econômicos. Mas a voz dessa mulher traz uma chave que pode abrir a porta para um caminho no combate à crise climática: a Amazônia é uma mulher.

O deputado Gustavo Seffer lidera o movimento pró-exploração de petróleo na Amazônia
O deputado Gustavo Seffer lidera o movimento pró-exploração de petróleo na Amazônia

*Um detalhe importante! Deputado Gustavo Sefer, lidera na Alepa o movimento a favor da exploração da petróleo do Rio Amazonas. Vale lembrar que Gustavo é filho do ex-deputado Luiz Afonso Sefer condenado a 20 anos de prisão pelo crime de estupro de vulnerável. Na época do crime, a vítima  era uma criança de 9 anos e trabalhava como empregada doméstica na residência de Sefer. Luiz Sefer abusou durante quatro anos da menina trazida de Mocajuba, interior do Pará. Até hoje Sefer não foi preso. Entenda mais clicando aqui. 

Que baboseira é essa?

Para começar a passar pela esfera dessa esfinge vamos pontuar que este tema, crise climática, enquanto há pouco tempo tava mais pra papo cabeça de pesquisador de Harvard, rompeu a bolha da pesquisa, o assunto  virou pauta comum nos telejornais e até nos perfis de fofoca com as imagens de desastres naturais no Tik Tok. As discussões sobre crise climática chegaram nas periferias, mesmo que com outros nomes, tipo “tá insuportável de calor”. Na Amazônia, botos e peixes morrendo, rios secando, queimadas criando fumaças tóxicas em cidades, enquanto no Sul do país  enchentes invadem casas, e a onda de calor vivida no sudeste neste segundo semestre de 2023 já entrou para a história. Ah, você pode dizer, são “fenômenos naturais como El Nino”, tudo bem. Mas há muito da mão do homem nesses extremos. Essas “ações do homem” definem o que os especialistas chamam de era do “antropoceno”. E entender o antropoceno é de fundamental importância para compreendermos que a história do “homem” no comando do mundo, é o enredo causador da emergência climática que estamos vivendo. 

O homem no centro de tudo?

O termo deriva do grego “anthropos” que significa “ser humano” e “kainos” que significa “novo”. Essa definição aponta que as influências das atividades humanas como a industrialização, urbanização, desmatamento, queima de combustíveis fósseis, estão imprimindo no mundo a sua marca geológica. Ou seja, o homem está mudando o mapa do mundo através de suas ações e com isso, interferindo no clima.  

Segundo Bárbara Paiva, geógrafa, pesquisadora e especialista em análise ambiental, o antropoceno está diretamente relacionado com a estrutura capitalista do mundo atual. “Antropoceno é a era que a gente vive a partir do capitalismo. Então todas as transformações relacionadas à dinâmica territorial, as transformações econômicas nas dinâmicas territoriais, são causadas por esse movimento de uma nova era geológica. Nós estamos transformando a natureza, os ecossistemas, numa nova realidade a partir da intervenção pra explorar recursos”, explica Bárbara. 

Percebam que, não por acaso, falamos das “ações do homem” como definição das ações de toda a humanidade. A palavra “humanidade” tem origem no latim e está relacionada a “homo” que significa “homem”. Onde quer que a nossa lanterna lance uma luz, lá está o homem construindo o que conhecemos como humanidade. Somos um sistema edificado com a figura masculina no controle, o que pode ter começado com a transição da sociedade de caça e coleta, para a agricultura que data de mais ou menos 10.000 anos e a necessidade de proteção da propriedade. Isso quer dizer que há alguns milênios o homem vem edificando o mundo atual, sob moldes da acumulação e dominação.  O resultado dessa soberania do masculino é o que a história chama de “patriarcado”.  

Os subprodutos do patriarcado são mazelas como guerras, exploração, escravidão. Gilberto Freyre, sociólogo brasileiro, falou sobre isso em seu trabalho “Casa-Grande & Senzala”. Para ele o sistema patriarcal da sociedade colonial brasileira esteve diretamente ligado a instituição da escravidão, tendo “a casa grande” como núcleo do poder patriarcal, onde o senhor do engenho detinha controle sobre sua família, escravos e propriedade. A obra de Freyre afirma que o patriarcado e a escravidão estão interligados e moldaram profundamente a sociedade brasileira.  Numa sociedade patriarcal, explorar é a palavra de ordem e pra isso ele (o sistema) se prevalece de ferramentas como força, poder e religião.

​A caixa de Pandora, o berço da misoginia?  

Mas muito antes da escravidão cononial no Brasil, a viga-mestra da sociedade patriarcal, já era a exploração de tudo o que a força pode oprimir, como por exemplo, as mulheres.  De todos os subprodutos do patriarcado, a misoginia pode ser o fruto mais primordial com o ódio, a aversão ao feminino. Numa abordagem psicológica, a misoginia é uma psicopatologia do patriarcado. A misoginia é a manifestação de uma psicose na psique da humanidade.

Pesquisadores dizem que não é fácil datar com precisão as origens da misoginia, entretanto, provavelmente ela teve início em algum momento do século VIII a.C, e os gregos podem ter sido pioneiros na visão das mulheres como seres inferiores inspirados pelo mito grego chamado “A Caixa de Pandora”, sobre a criação da humanidade.   

O mito conta que o titã Prometeu roubou o fogo de Zeus para entregar aos mortais e então garantir a superioridade dos homens sobre os animais. Mas, o fogo era exclusivo dos deuses e de Zeus. Zeus, só pra lembrar, o senhor supremo do Olimpo. Zeus então bolou um plano vingativo. Encomendou a outros Deuses a criação de Pandora, a primeira mulher humana. Pandora tinha as melhores qualidades possíveis como beleza, arte, inteligência, dança, graça e dominava todo tipo de trabalho manual. Mas guardava consigo uma cilada. Ela carregava uma caixa com todas as mazelas do mundo e essa caixa não poderia ser aberta. Entretanto, Pandora não conseguiu resistir e abriu a caixa, libertando  os males e sendo ela então o motivo da queda do homem. 

A lenda de Pandora simboliza a percepção grega de que o mal está oculto por baixo da bela aparência da natureza e da vida feminina. Segundo o escritor Tom Holland, especialista em história da humanidade, para os gregos, as mulheres, devido à sua constituição, ciclos vitais, eram seres com vínculos indissociáveis da natureza, coisa que não se observava nos homens. Então a natureza para os gregos era uma ameaça, um desafio para a realização e superioridade masculina.

O mundo do castelo dos “falos”

Jane Beltrão, antropóloga e pesquisadora, explica que numa cosmovisão – ou seja, a visão que inclui todas as nossas crenças e interpretações de mundo –  a natureza é uma mulher explorada pela misoginia tal qual o corpo feminino. “Não é uma questão de crença, é uma questão de constatação. Ter a terra como mãe e acordar pra essa realidade, é dizer que a demarcação das terras indígenas, se fazem pra estabelecer os limites que eles sejam respeitados. A realidade é violenta, e ela se faz transpassando o corpo das sociedades tradicionais, onde há violações todos os dias. Você teve a notícia da menina no Amapá que foi violentada e afogada na lama? Porque a maneira de violar o corpo, é uma maneira de intimidar a sociedade e de fazê-los temer”, explica. 

O caso a que Jane se refere é de uma indígena de 15 anos, que morreu depois de ficar 4 dias entubada, após ter sido violentada e afogada na lama na região do Oiapoque, extremo norte do Amapá. O criminoso, Cláudio Roberto da Silva Ferreira, tentou fugir de barco, mas foi preso. Esse tipo de crime é comum em regiões de invasão de territórios tradicionais. Observa-se que onde há violação da terra, há violação também do corpo feminino. A invasão promovida pela atividade garimpeira é uma das grandes responsáveis pelo crescimento das áreas de desmatamento e pela contaminação das águas de rios e igarapés, por causa do uso de mercúrio na extração do ouro. E é na Amazônia que a fronteira garimpeira mais avança.

Unidades de Conservação e territórios indígenas são o alvo da ação criminosa de garimpeiros. Entre 2010 e 2020, a área ocupada pela atividade garimpeira cresceu 352% em unidades de conservação no Brasil, de acordo com levantamento da rede de pesquisadores MapBiomas (2022). As três unidades mais afetadas estão no estado do Pará. 

Falando em Pará, mais precisamente da região de Itaituba, sai 80% de todo o ouro ilegal extraído no Brasil, de acordo com estudo da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Com a economia local dependente do garimpo ilegal, a atividade é estimulada por empresários e políticos da região como o próprio prefeito Valdir Climaco.  O político, de 61 anos, ganhou fama nacional em março de 2022 ao surgir em uma festa, embriagado, dizendo ao microfone que teria relações sexuais com mais de vinte “raparigas”. A ação viralizou nos portais de notícia e lhe custou uma multa de 40 mil reais em ação do Ministério Público do Pará.

Mas Climaco apenas disse publicamente o que é prática normalizada naquela região: a exploração do corpo feminino, a prostituição. Aliciadores atraem mulheres pelas redes sociais para prostituição em garimpos ilegais. Em grupo no facebook é possível ver anúncio para trabalho em “cozinha” no garimpo, o que é apenas uma fachada, para negociar meninas à prostituição, prática já desvendada pela Polícia Federal, como numa ação que ocorreu em março e 2023, e revelou a armadilha de aliciadores para levar meninas ao garimpo nas Terras Yanomami.

Alessandra Munduruku é coordenadora da Associação Indigena Pariri e é da aldeia Praia do Índio, uma pequena reserva, no município de Itaituba. Ela explica que as mulheres são as mais afetadas pelo garimpo. “A primeira coisa do garimpo na mulher, é que o mercúrio mexe direto com o útero, aí a mulher não consegue mais gerar filhos. O útero que gera a vida. A consequência do garimpo é que onde ele chega tem droga, prostituição e aliciamento de mulheres”, explica. 

Ela afirma que o mercúrio também vem da atividade das mineradoras. “Tem garimpeiro que quer legalizar garimpo, e agora as mineradoras estão entrando no Tapajós. A gente fica preocupado porque já estamos enfrentando o mercúrio e agora as mineradoras que trabalham com cianeto também querem entrar. Quem vai combater as mineradoras? Quem tá liberando a mineração aqui? Nós que não somos”, contesta.  

Alessandra critica o marketing excessivo acerca do “crédito de carbono”. “Querem barragem, querem ferrovia. Barragem seca os rios. Eu vejo como mercadoria da nossa vida, dos nossos corpos. Nessas conferências, eles não querem ouvir os povos tradicionais, eles querem lucrar. Tem empresa que explora, desmata e quer vender crédito de carbono, mas quando acaba o lucro dele, ele vai explorar essa terra”, diz ela.  

A indígena criticou também o “prefeito garimpeiro” como é conhecido Valdir Climaco. “Ele é garimpeiro, madeireiro, grileiro, sojeiro, mais terra pras grandes empresas pra ter pontos nas beiras dos rios. O impacto de ser gerido por isso, é negação da nossa existência, apesar de ter a história dos Munduruku que viveram na beira dos rios, agora temos um prefeito que veio do Ceará e ignora a nossa história”, pontua.  

Para Alessandra, a natureza também é uma mulher explorada. “O que é a natureza? Pra nós o que interessa é a vida, o conhecimento dos remédios tradicionais, e isso ninguém pode tirar, a não ser as empresas que chegam pra enganar a gente. A terra é uma mulher, ela pariu os rios pra nós nos alimentar, mesmo nas grandes cidades, a água tá presente, e é como uma mãe, como o leite materno. Quando começa a mexer com a terra com o corpo da mulher, as pessoas começam a adoecer. As pessoas estão doentes com as queimadas, não conseguem respirar”, conclui referindo-se às queimadas no Pará e Amapá que invadiram as capitais com nuvens de fumaça.

​O matrifocal: ênfase no papel da figura feminina

Na visão do ecofeminismo existe uma profunda interconexão entre a exploração da natureza e opressão das mulheres. Vandana Shiva, autora e ativista ecofeminista, traz a perspectiva sobre as questões da ecologia relacionadas aos direitos das mulheres.

Em seu livro “Staying alive: women, ecology, and development” lançado em 1988, a autora afirma que o paradigma desenvolvimentista de um mundo patriarcal, orienta essas ações, vê o meio ambiente como recurso para ser explorado. Antes disso, o conhecimento da mulher, ecológico, hídrico, era baseado na sustentabilidade, não tinha retorno comercial imediato e buscava o sustento da vida. A mulher não via a necessidade de excedentes, visto, o excedente como um roubo à própria natureza. A contraposição a essa sábia relação é o modelo de privatização dos lucros, da exploração ambiental do capitalismo. Então as mulheres perderam acesso à terra, aos bosques, às águas, confinadas em casa, sem renda, sem emprego e sem acesso ao poder. 

Em entrevista para Bela Gil, disponível no youtube, Vandana diz que a ideia de “natureza morta” é uma estratégia do sistema. “Como este pensamento de que a natureza está morta cresceu? Não é que os homens pensem que a natureza está morta, alguns homens poderosos fizeram o serviço de declarar que a natureza está morta, para que pudessem então explorar a natureza. Falavam que a conexão com a natureza é bruxaria. Essa foi a caça às bruxas. Nove milhões de pessoas mortas na Europa, no que chamo de epistemicídio, mas esse epistemicídio leva ao ecocídio, o assassinato da natureza,  feminicidio, o assassinato das mulheres, genocídio, matando um grande número de pessoas, e toda essa violência está interligada, porque vem da mesma ideia de superioridade e separação”, afirma.  

A relação de afeto com a terra 

Voltamos então à Jane Beltrão, nossa antropóloga citada acima, para trazer uma outra perspectiva: a do afeto com a terra. Para ela, uma perspectiva necessária é a compressão da relação afetiva com a terra, que é uma característica de sociedades ancestrais, que não está no passado, mas sim, presente, em territórios tradicionais. “Eu não diria que é uma coisa que passou, eu diria que é uma coisa do presente. A relação das sociedades tradicionais com a terra é visceral, pra eles a terra é mãe. Ela tem vida. A relação com a natureza é extremamente imbricada. Assim como nós podemos ter essa relação, mas não temos”, afirma.  

A antropóloga explica que essa forma de pensar não tem nada de novo, mas trata-se de um resgate. “Nós nos consideramos superiores a natureza, por isso nós interferimos na natureza de forma desastrosa. Para as pessoas que se acham superiores, elas têm uma relação como se a terra fosse commodities. Mas não para as sociedades ancestrais. No caso dos povos tradicionais, eles consideram a terra como um ser, e hoje a ciência comprova isso. Temos vários cientistas que reforçam essa tese, que as árvores, quando a natureza é machucada, elas fortalecem sua rede”, afirma Jane.  

Jane explica que essa relação de afeto, que nós não temos com a terra, pode ser muito facilmente identificada numa aldeia indígena. “Os povos tradicionais tem um afeto com a terra, cantam pra terra, pedem licença pra terra. E no fim da vida, ela os acolhe, por ser mãe. Quando você vê esse afeto que eles mantêm pela terra, você considera eles primitivos, irracionais. Mas se você conversar com esses protagonistas, você vai ver que tem racionalidade, porque a terra oferece tudo que eles precisam, então ela precisa desse afeto”, explica.

Naraguassu, amar e sonhar

Naraguassú Pureza não subiu no púlpito da Alepa sozinha. Trouxe sua avó pajé, e suas ancestrais, não permitindo o apagamento da memória das etnias marajoaras, fisicamente riscadas do mapa com a chegada do colonizador, que trouxe consigo a imposição de um Deus homem, falocêntrico e monoteísta, que pisoteou o culto à Deusa Mãe, a Terra. Conversamos com Naraguassú para saber o que sente sobre a Amazônia e ela nos trouxe uma visão repleta de simbolismo.  “Amazônia é um pedaço da terra, cheia de biodiversidade, de vida, onde gera toda vida, de todos os seres viventes da face da terra. Comparando nesse sentido, com a mulher, que é a que tem a Mãe do Corpo e que gera outro corpo, ela é uma mulher, ela gera outros seres”, afirma a marajoara.

Naraguassu, assim como os mitos marajoara, acredita que a água é a grande criadora. “O reino vegetal, essa civilização toda, depende da água. Então nesse sentido  de ter uma Mãe da vida, uma mãe que tá sempre gerando a vida. E eu não chamo de Amazônia. Eu chamo Ama ‘sonha’, que é o amor e o sonhar. Amar é toda espécie, é todo sentimento, é toda forma, é toda energia que gera vida. Sonhar é todo processo de subjetividade, de criação. Minha avó dizia que antes das caravelas chegarem, esse pedaço de mundo era apenas para amar e sonhar, porque não existia o capital”, explica. 

Para Naraguassú o que o sistema capitalista faz com a Amazônia equivale a um “estupro”. “Comparada a outros continentes, como África, Índia e outros, a Amazônia, é a mais jovem, e tão violentada. Porque sim, a mineração estupra. Ela sofre todo tipo de relação de perversidade que o outro lado, que é essa energia masculina, essa força masculina carrega. Ela, como essa moeda, deixa de ser esse amor, esse sonho e passa a ser capital. Ela passa a ser lucro, ela passa a ser ganância e é essa relação que a força masculina sempre teve com a mulher, esse pensamento, que a mulher está pra servir. Nesse sentido, eu juro que cada coisa que eu vejo, da morte desse pedaço de terra, é como se fosse o meu corpo, e acho que assim que sentem todas as mulheres”, afirma. 

O Rio é Das Amazonas 

Entre as muitas lendas que povoam a história da Amazônia, uma delas é sobre a criação do próprio nome da floresta. Segundo a escritora amazônida Amarílis Tupiassu, e autora do livro “A Derrocada da Era Indígen”, a palavra “Amazônia” vem das famosas mulheres fortes, guerreadoras, criaturas míticas. “Estão presentes na antiquíssima literatura de Roma. Lembra de que, quando, isso já talvez a partir dos séculos XVII, por aí assim, quando mulheres de altas linhagens saiam a cavalgar, ou às caçadas, elas vestiam-se de roupas masculinas, calças de homens num tempo em que calças aos homens eram obrigatórias? Pois é, nesse caso, elas tinham que cavalgar com vestes Amazonas”, explica. 

Amarílis continua. “Então, como vês, o caso segue; quando da primeira travessia de espanhóis “descobridores” pelo nosso rio maior do mundo, o cronista Cristobal Carbajal, escrevente dessa primeira travessia, registra que esses navegantes, em 1542, encontraram num ponto de nosso rio, já lá por perto do afluente Jamundá, mulheres valentíssimas. E haja chuva de flechas nos europeus. Carvajal (perdeu um olho, flechado) teria olhado com total pasmo para elas e teria exclamado: ‘ó são as Amazonas’. A partir de quando então ver-se-ia nomeado, com palavra europeia, o rio das Amazonas. E, than-than-than, logo o mundo regido por homens, excluiu o “das” determinativo gramatical de feminilidade. Desse modo, ficou-nos o Rio Amazonas, o antigo das Amazonas e assim perdura, despido da memória das flechas das valentes índias Coniupuiaras (esse era o nome dessa mítica tribo de guerreiras) que, como a maioria dos grupamentos indígenas do Brasil, virou pó, o pó das antigas eras de nossa história”, conta a escritora. 

A nova consciência para o mundo 

Sob a luz da psicanálise junguiana, baseada na teoria de Carl Gustav Jung, a misoginia é a manifestação da uma condição patológica, muito mal resolvida do homem com o anima. E o que é o anima? Trata-se do aspecto feminino dentro da psique individual de cada ser, independente de como este ser se identifica enquanto categorização de gênero social. Anima desempenha um papel crucial no processo do desenvolvimento psicológico saudável. Quando lançamos luz para o inconsciente coletivo, ou seja, a psique da humanidade, os elementos universais e arquétipos manifestados em mitos, símbolos e imagens, construíram uma psique em conflito com o feminino, que se sente ameaçada, que rejeita os aspectos do anima, negando assim a própria natureza. 

Os elementos de amor e afeto de culturas que têm o feminino da natureza como sagrado, foram massacrados pela cruzada “civilizatória” colonizadora do homem branco na sua jornada do herói, matando em nome de um Deus viril, hipermasculino. O dragão do capitalismo foi criado pelo homem que voa sobre as terras verdes cuspindo fogo, em sua paranóica aversão ao feminino e desejo de poder. Esse mesmo fogo que destrói árvores pra fazer pasto, é o fogo que faz subir a temperatura do mundo e os povos originários sabem disso porque mantiveram sua relação com a Mãe.

Essa desintegração da porção feminina, trouxe para o mundo a competição, a escravidão, a homofobia, o egoísmo, a individualidade, tudo desvairado, em nome do puro e simples poder.  Separados da consciência do “afeto com a terra”, parafraseando Jane, só seremos capazes de olhar para o “Rio Das Amazonas” como uma fonte bilionária de petróleo. E enquanto essa consciência prevalecer o “amor e sonho” de Naraguassu pela mulher Amazônia estará cada vez mais deserto. Um novo paradigma urge.  Uma nova consciência. 

Reportagem: Mary Tupiassu 
Ilustrações: Bárbara Castro